Nos últimos anos, “saúde mental” saiu do consultório e entrou em toda parte: no feed do Instagram, na campanha da empresa, no aplicativo de meditação, no post motivacional de segunda-feira. Isso, em tese, é bom. Falar sobre o assunto sem vergonha é um avanço real.

Mas alguma coisa se perdeu no caminho.

De cuidado a performance

Quando todo mundo precisa da “terapia em dia”, o cuidado vira mais uma tarefa na lista — mais um hábito pra manter, mais uma meta pra bater. Água, sono, exercício, meditação, terapia, gratidão. Tudo importante, isoladamente. Mas quando vira check list, o efeito é o oposto do que promete: em vez de aliviar, a pessoa se cobra por não estar “cuidando o suficiente” da própria mente.

Vejo isso no consultório com frequência: pacientes que chegam exaustos não porque não sabem o que fazer, mas porque já fazem de tudo — e mesmo assim continuam mal. A pergunta que fica não é “o que mais eu preciso fazer”, mas por que estou mal mesmo fazendo tudo.

O sofrimento não é uma falha de manutenção

Parte da confusão vem de tratar o sofrimento psíquico como se fosse um problema técnico — uma peça desregulada que precisa de ajuste, e com urgência. Um medo ou ansiedade vira “falta de mindfulness”. Exaustão vira “falta de rotina de autocuidado” ou de suplementos. Tristeza vira “pensamento negativo” a ser corrigido com afirmações positivas. E facilmente isso tudo é enquadrado em um diagnóstico que mais paralisa do que promove saúde.

O problema é que o que gera sofrimento não está num defeito bioquímico do organismo — está no trabalho que exige demais e reconhece de menos, na rede de apoio que não existe, no tempo que não sobra, nas condições de vida, na captura de modos de existir. Nenhum hábito de manhã resolve isso. E quando o cuidado em saúde mental ignora esse contexto, ele devolve a responsabilidade inteira pra pessoa — como se adoecer fosse, no fundo, uma fatalidade e um problema puramente individual.

Que tipo de cuidado queremos

Não acredito em saúde mental como ausência de sofrimento — isso seria irreal. Acredito em devolver a cada pessoa a autoria da própria experiência: entender o que dói, de onde vem, e o que fazer com isso — sem reduzir tudo a um sintoma a ser corrigido nem a um hábito a ser adicionado numa lista.

E na maioria das vezes isso significa desconstruir um diagnóstico. Quase sempre significa parar de perguntar “o que está errado comigo” e começar a perguntar “o que está acontecendo comigo”.

O cuidado em saúde mental, nesse sentido, não é ensinar mais uma técnica ou adicionar mais um item na sua lista de afazeres. É criar espaço e caminhar junto.


Se você chegou até aqui se reconhecendo em alguma parte disso, talvez valha conversar.


Um aviso: este texto traz reflexões e orientações gerais e não substitui uma avaliação médica individual. Cada pessoa e cada história são únicas — se algo aqui ressoou com você, considere conversar com um profissional que possa olhar pro seu caso específico.

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